Moema quer Lula de novo em 2010 (pra não perder o mau humor)Tenho parentes muito queridos em Moema. Se pudesse, levaria todos para outro bairro. Entrei num pet shop para comprar ração para minha gata, que mora em Moema provisoriamente, mas ainda não aprendeu a detestar o Lula. Quando encostei no balcão para pagar, o proprietário aproveitou o gancho de um assunto qualquer que rolava na loja para disparar o primeiro petardo:
- Também, com esse presidente que nós temos.
Não lembro mesmo qual era o assunto, mas não tenho a menor sombra de dúvida de que tinha nada a ver com o presidente. Aposto que ele encanou com minha barba e roupa largada de sábado à tarde, achou que eu tinha cara de petista e quis provocar. Aceitei de pronto.
- Que presidente?
- O presidente da República, o sujeito esclareceu, como se precisasse.
- E o que o presidente tem a ver com isso?
- Olha o exemplo que ele dá para as crianças desse país, de que não é preciso estudar.
É o tipo de comentário racista e óbvio que costuma me dar preguiça, porque na hora você vê que está diante de um interlocutor com poucos neurônios, ou morrendo de preguiça de usá-los, e nenhuma consistência política, que não merece um minuto da sua atenção, nem da sua saliva. Mas acontece que eu acabo de voltar pra São Paulo, e como estava desacostumado com esse ranço irracional, ando me emputecendo. Mas sem perder a classe, seguindo, diga-se de passagem, o exemplo de nosso presidente.
- Meu senhor, eu vejo exatamente o contrário. Se temos um presidente que não tem diploma, isso pode ser o exemplo de como uma pessoa que não teve essa oportunidade pode vencer na vida.
Aí o cara faz cara de cu e joga na mesa outra carta do seu baralho de preconceitos – achando que é o as de paus, mas sem saber que tenho o coringa.
- Mas olha as coisas que ele fala, pedindo que as pessoas comprem carros pra economia do país não quebrar. Quando era metalúrgico, os discursos eram bem diferentes.
- Mas meu senhor, ainda bem que ele mudou o discurso. Já pensou o caos que seria se tivéssemos um presidente falando como se fosse metalúrgico? Ademais, lembre-se que o antecessor dele, portador de tantos diplomas, também mudou o discurso quando chegou lá.
- É mesmo, mandou esquecer o que tinha escrito...
Ouvi mais um ou dois impropérios, respondi com argumentos sólidos e cheguei a pensar que o cara ia pedir que eu me retirasse sem me vender a ração – o que seria mais irritante que qualquer bobagem por ele pronunciada, pois já eram mais de 6 da tarde e não haveria outra loja aberta. No final, esticou a mão e desejou “um bom fim de semana, senhor Julio”.
A gata será devidamente alimentada até que eu a leve para um ambiente mais sadio, onde os jornaleiros não escondam a Carta Capital porque sabem que as pessoas só compram a Veja. Juro, é verdade. Eu frequento Moema e sei disso. Saber que as pessoas são viciadas numa revista que explora as tragédias pessoais de Fábio Assunção e Marcelo Leite, para citar só os exemplos mais recentes, explica muita coisa.
Eu já votei em tucanos, tucanos de boa cepa nos quais continuaria votando se fossem vivos. A questão aqui não é de foro ideológico nem partidário, é quase um problema de direitos humanos e democracia. Desrespeitar o presidente que cada dia mais é uma preferência nacional é como se esforçar para ser cego, para virar personagem de Saramago. Não digo que todos têm que gostar dele, mas é preciso abrir os olhos, aprender a detectar as mentiras que se lê, ampliar as fontes de informação para saber o que se passa no país. Ignorar que 70% da população acha Lula legal é debochar da democracia. Vão dizer o quê? Que o povo é ignorante e só gosta dele por causa do Bolsa Família? Então vale mais a opinião da Folha de S. Paulo que da população? A classe média de São Paulo, em especial, e dos grandes centros urbanos de maneira geral precisa parar de olhar para o próprio umbigo.
Fique claro que eu passei boa parte da infância e adolescência em Moema, onde vivi momentos ótimos. Acontece que na época eu não ligava para política. E fique claro também que essa história poderia ter se passado na Vilompa, Itaim, Jardim Europa e, verdade seja dita, até Pinheiros. Calhou de ser em Moema.
Luiz Inácio 3, Chile 0depois de muito tempo sem escrever e de perder nossos dois leitores e meio, irmãos praguinha voltam, embalados pela arrasadora goleada do escrete canarinho sobre a máquina chilena (de fazer empanadas, só se for).
a vitória sobre prova que nosso presidente bocudo estava certo mais uma vez em seu mais recente improviso. não só falou uma verdade (que várias vezes dá inveja da argentina quando vemos os jogadores da nossa seleção jogarem como se estivessem com saudade das canchas européias) como mexeu com os brios do elenco, a ponto de dunga tê-lo chamado de filho da puta na preleção. pelo menos é o que o estadão falou.
por falar em improvisos lulistas, já que a semana foi profícua, concordo tb que o projeto do temporão de proibir fumódromos é exagerado e pouco democrático. talvez seja bem-intencionado, mas fico na dúvida se não tem um quê de autopromoção nisso aí. fora que imitar uma idéia do serra em época de campanha eleitoral não é lá muito estratégico...
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Terça-feira, Dezembro 11, 2007
O Pior Filme de Todos os Tempos da Última SemanaSei que este título de blog já foi usado pelo Julio, mas como vira e mexe sai um péssimo filme, pior do que os outros, uso a mesma frase para me referir ao filme "Across the Universe", que pretende tratar da loucura dos anos 60 e 70 através da trilha sonora dos Beatles. Tamanha pretensão só poderia ter dado no que deu, em merda! O filme é péssimo, sem enredo, sem atuação, com flashes desconexos da época ( de repente surgem imagens da Guerra do Vietnã) acompanhados por músicas dos Beatles cantadas nojentamente! Para não ficar apenas na crítica, devo dizer que certas cenas são hilárias! De tão ridículas, obviamente. Mas o filme traz uma vantagem: anuncia logo de início qual será seu percurso. Assisti a ele com minha namorada, e na primeira cena já pude perceber e falar para ela: -" O filme é uma merda, vamos embora!" Mas ela não quis, e eu também, no fundo, não queria, pois sou daqueles que insistem em fazer as coisas até o final, mesmo quando elas não agradam. Leio livros até o final, mesmo quando estão chatos. Aliás, lembro quando o Julio e eu, palmeirenes, estávamos no Morumbi, assistindo a um Palmeiras x São Paulo. No final do jogo, já estava 4 a 1 para o São Paulo, e o Julio quis ir embora. Eu, seguindo essa minha mania, disse para ficarmos, que tinha mais para ver. Não deu outra, aos 40 e poucos do segundo tempo, mais um gol do São Paulo!!! Valeu a pena ficar! E não percam o filme!
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Sábado, Novembro 03, 2007
Breve diálogo entre um adulto brasileiro e um grupo de jovens aparentemente israelenses
- É árabe que vocês estão falando?
- Hebraico. É parecido.Você é da onde?
- Daqui do Brasil. Estive no Líbano um tempo atrás e...
- Líbano?! Eles não gostam de nós.
(um colega pede a palavra)
- O que você foi fazer no Líbano?
- Tenho um amigo lá.
(conversa interrompida, aparentemente para sempre, na pacata e amigável Ilha Grande)
São apenas crianças, que comem a rúcula da pizza com a mão para tirar foto fazendo careta. Mas têm intolerância de gente grande.
cenas de um aniversario bem comemorado na vila madalena (falta o praguinha caçula, barrado na porta, e as pessoas que foram embora cedo)
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Quinta-feira, Setembro 20, 2007
A ilha, de Fernando SabinoNão sei o que é mais criativo e escatológico: as historietas de Sabino que me acompanham nas mesas de bar da ilha ou os moradores que teimam em me distrair com o cotidiano digno de alguém mais competente para resenhá-lo.
Para narrar com mais precisão o choro manhoso mas realmente dolorido da menina estatelada na ruazinha poeirenta depois de enfiar o pé entre os aros da bici que giravam sem dó, aquelas tipo Barra Forte, perfeitas pra carregar passageiro no quadro na falta de garupa, perfeitas pra derrubar passageiro.
Alguém mais competente para descrever a classe com que enfiou o pai o rabicó entre as pernas. Bravo, ignorante, insensível e beirando a violência no início, aos brados de Falei pra você tomar cuidado com o pé, ô sua burra!, umas cinco ou seis vezes, como se além de toda arranhada e com suspeita de luxação, a desgraçada fosse surda, o bronco foi ficando todo pianinho à medida em que os populares se aproximavam. Deu-se conta que apesar de burra, teimosa e desastrada, a menina estava machucada, e o povaréu a cercá-lo, quase todas mulheres, exigia uma providência. Tomado por um irreconhecível desapego, encostou a Monark no meio-fio e, sem sequer pedir pra alguém cuidar, acolheu a pequenina nos braços, mais jeitoso do que nunca, e saiu em disparada a confortá-la, Te levo lá agora mesmo, é rapidinho, meu amor.
Enquanto isso, a uns dez minutos dali a pé, a senhora submissa percebe que a obra vai demorar bem mais que o previsto, conforme a vizinha havia alertado, O barato sai caro, comadre, contrata gente de responsa. Ela quase chegando em casa e não é que o vida mansa vem no sentido contrário, assobiando Faroeste Caboclo por não saber a letra...
- Já vai? - Já. Chega essa hora o estômago começa a roncar, não dá pra ficar mais não. - Hoje não volta não? - Não, só amanhã. Já fiz isso, isso e aquilo, amanhã faço mais um pouquinho. É assim mesmo, devagarzinho a gente chega lá.
Retoma o passo rumo ao Rei do Camarão, ao lado do Píer, onde uma Itaipava gelada o espera, e deixa a patroa falando sozinha. São três da tarde quando ela percebe que a obra vai demorar bem mais que o previsto, conforme a vizinha havia alertado. Mas na manhã seguinte chega uma notícia boa pra compensar. Não se trata do pedreiro, já que é sábado e agora só na segunda. Após passar a noite inteira preocupada com a desconhecida que ia precisar amputar o pé por causa de uma desgraceira de um atropelamento de uma Caloi 10, Sempre achei Monark mais confiável, recebe da comadre a notícia que alivia, Foi só um arranhão, é filha do Zé Teodoro, homem de Deus, evangélico de ir no culto todo dia aqui nessa abençoada Ilha Grande, que Deus nos guie e guarde.
Na rua central, no mesmo metro quadrado da tragédia anterior, outra garota cai da bicicleta. Cospe na ponta dos três dedos mais longos da mão direita, passa no joelho, ajeita a mochila da escola nas costas e segue decidida rumo ao próximo tombo. Criança é assim mesmo, só apronta.
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Segunda-feira, Agosto 20, 2007
finalmente, ouviram o outro ladoa entrevista com o larry rohter que o estadão publicou ontem é um importante capítulo da história recente do nosso jornalismo. até então, ele era pra mim, como imagino que para a maioria dos brasileiros, apenas o irresponsável que inventou uma preocupação nacional com as cachaças que o lula toma. agora, ele continua sendo este irresponsável, mas dentro de um contexto bem maior, de uma longa trajetória latino-americana cheia de histórias para contar, de perseguições, de conhecimentos sobre nossa cultura... e de um misto de humor e pedância, quando, por exemplo, diz que sua reportagem contribuiu para que o presidente parasse de beber tanto. além, é claro, da reportagem ter feito o procedimento mais básico do jornalismo, ouvir o outro lado. segue um trecho abaixo, mas recomendo a íntegra. é longa, mas vale a pena.
Já o chamaram de agente da CIA ou espião do governo americano.
Paranóia que acaba por prejudicar o trabalho do correspondente. É um absurdo pensar que eu seja agente da CIA, ou do Departamento de Estado, ou de qualquer outro organismo do governo americano, como afirmaram pessoas como o ex-ministro Luiz Gushiken e frei Betto. Disseram que minha atuação no Brasil obedecia a interesses externos porque o Lula estava na luta contra a fome no mundo, em disputas na OMC, que o País estava se projetando mais, então essa "gente de inteligência" vem para cá acabar com o Lula. Absurdo! Basta pesquisar minhas matérias no Google para descobrir que eu já fazia artigos favoráveis à luta do Brasil contra o protecionismo na OMC, só para citar um exemplo. Claro, fiz matérias contundentes sobre a Amazônia e os militares até se ofenderam. Recentemente, visitei uma aldeia ianomâmi, que fica ao lado de uma base militar, e constatei que soldados mantinham relações com meninas indígenas, inclusive engravidando-as. Fiz a reportagem. E os militares ficaram zangados com a "intromissão".
¶ 12:01 PM1 commentslinks to this post
o mais velho vive em brasília, o caçula em são paulo. um é jornalista, o outro acadêmico. um trabalha no governo lula, o outro pro kassab. eles se dão bem, mas geralmente discordam no que se refere a política, fenômeno seriamente agravado pela experiência de lula na presidência. daí a idéia de criar um espaço para promover este debate. histórias curiosas do dia-a-dia e outros temas tb entram, afinal, ninguém merece...